domingo, 3 de fevereiro de 2013

Fechos

Enfiei-me, em praça pública, num tubo de vidro. Fechado.

Ali fiquei por horas, dias, meses, anos. Dentro do tubo de vidro. Fechada.

Transeuntes observavam, assustados. Tentavam entender por que aquela mulher se abrira dentro de um tubo de vidro. Fechado.

Solidários jogavam cordas. Mas eu estava dentro do tubo de vidro. Fechada.

Inquisidores decretavam a fogueira. Mas o fogo não era maior que a tortura de estar dentro do tubo de vidro. Fechado.

A mãe, apenas sentindo muito, dizia que nada poderia fazer para me tirar daquele tubo de vidro. Fechada.

O pai, envergonhado, ordenava que eu lavasse a louça e saísse imediatamente do tubo de vidro. Fechado.

Amigos arrancavam suas mãos, ombros e ouvidos, arremessando-os em minha direção. Mas eu estava dentro do tubo de vidro. Fechada.

A criança implorava que jogássemos bola. Mas eu estava dentro do tubo de vidro. Fechado.

Os animais eram sentinelas ao redor. Eu me sentia protegida dentro do tubo de vidro. Fechada.

As chuvas de verão limpavam a cidade. Mas as águas não entravam dentro do tubo de vidro. Fechado.

Flores renasciam em todos os jardins. Mas as minhas continuavam dentro do tubo de vidro. Fechadas.

O Sol trazia alianças. Mas eu estava dentro do tubo de vidro. Fechada.

O relógio central escorria até mim, fazendo-se em um espelho e mostrando meus cabelos brancos: eu envelhecia dentro do tubo de vidro. Fechado.

A Lua trazia seu colo, a cada noite. Mas eu dormia dentro do tubo de vidro. Fechada.

Senti, num instante, imensa vontade de pintar a liberdade e lancei meu corpo além do tubo de vidro. Mas eu já estava morta. Dentro de um caixão. Fechado.





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