terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vida em Morte

No chão, estavam os ratos. Eram partes de mim.

Tinha medo de sair do esgoto. Durante anos, fizera dele o meu novo mundo.

Da tampa do bueiro, assistia à vida de outrem. Não acreditava na minha.

E chorava.

Mas não reclamava. Os ratos eram mais limpos que meus pensamentos.

Ah... Meus pensamentos! Via-os, vez ou outra, ao defecar. Eram a vivificação da merda. Com braços, pernas, mãos e pés, eles me atacavam. Os ratos me defendiam. Assim, encontrei mais dignidade no esgoto do que em mim mesma.

Ali era seguro. Acreditava que, no escuro, o Eu não poderia enxergar o Mim.

Às vezes, até acordava pensando em encarar as coisas além do bueiro. Para evitar isso, amarrei-me com os próprios cabelos, compridos - há tempos sem cortar.

Numa noite, acordei com um barulho estranho: alguém invadira meu esgoto.

Um homem e uma mulher. Carregavam lanternas acesas e ferramentas.

-Quem são vocês? - perguntei, encolhendo-me no canto da cama.

-Somos cuidadores do esgoto da cidade. Viemos fazer uma inspeção no local, tudo bem para a senhorita? - o homem respondeu.

-Podem fazer, desde que tirem esta luz do meu rosto e tragam mais ratos.

Acomodei meu corpo novamente na cama e, mesmo atada pelos cabelos, tentei me cobrir.

De repente, senti que tocavam em mim: "Ei! Que estão fazendo?"

-Precisamos desatá-la e tirá-la daqui. Você sabe, não fica bem para o governo local ter um de seus cidadãos vivendo no esgoto. - disse a mulher.

-Tenho o direito de ficar aqui!! Ou isto não é público?!

-Pedimos desculpas, senhorita. Temos ordens para retirá-la.

-Que ser é este que dá ordens no esgoto?! - questionei.

Olhando para um papel, o homem tomou as rédeas das respostas: "Nesta área, é o senhor Mim."

-Mim?? Mas Mim não dá ordens! Aliás, ele sabe bem que não posso sair daqui. Ele não pode ser encontrado pelo Eu. Além do mais, lá fora não tem ratos! Não vou a lugar algum!

-Novamente, peço desculpas. Mas é para o seu bem. - disse ele.

Repentinamente, sem que pudesse esquivar, a mulher me cravou um punhal em meio ao peito.

Não consigo dimensionar a dor que senti. Apenas posso dizer que ainda ouço meu próprio grito.

Agônica, notei que meu sangue não era vermelho. Assemelhava-se à água marrom e fétida que corria no esgoto. Eu já estava pútrida.

Estranhamente, as mesmas mãos que me apunhalaram, cicatrizaram-me. Eu ainda agonizava. Todavia, ao invés de fechar os olhos, involuntariamente, eles se abriram.

Consegui me sentar na cama. Eu trajava um vestido longo, de algodão cru. Os cabelos, compridos, amarravam-se em uma trança.

Percebi, então, que estava moribunda na morte, não na vida.

O homem se despediu.

Perguntei pela mulher, que desaparecera.

-Ela não desapareceu. Apunhalar-te foi a única maneira que encontrou de adentrar e limpar sua casa. Aquela mulher, era o Eu. Agora, é Você.

 Olhei para os lados. O esgoto se transformara num jardim.

Assustei: os ratos ainda eram partes de mim!

-Olhe direito, Você! - o homem sugeriu.

E os ratos...

Minhas flores.






4 comentários:

  1. Excelente texto. Parabéns por mais esta obra de arte em forma de palavras.

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    1. Não chega a tanto rs. Ainda assim, muitíssimo obrigada!

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  2. Você conseguiu sintetizar excelentemente em prosa uma idéia ebm oportuna: Estamos tão acostumados à morte que a vida nos vem a parecer algo estranho.

    Morte expressada em todo este estilo de vida deletério ao qual nos tornamos prisioneiros. Prisioneiros de nós mesmos, por sinal.

    E, por incrível que pareça, achamos o máximo sermos mortos-vivos em meio a esta ilusão.

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    1. É... as palavras aliviam. Por vezes, até nos libertam dessa nossa prisão interna.

      Obrigada por aqui deixar sua interpretação! :)

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