terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Sinfonias

Alcancei a navalha.

Precisava aumentar o meu corte. Desta vez, fi-lo do queixo ao baixo ventre.

Das minhas vísceras, aquele ser saiu. Tinha forma de humano; sem rosto. Era cinza claro e sua textura assemelhava-se a algo pegajoso. Possuía, aproximadamente, sessenta centímetros de altura.

Ao perceber que saíra de mim, ele correu. Seu grito era estridente, como se viesse da alma (se é que aquilo a tinha).

Apavorado, desnorteado, derrubou tudo o que encontrara pela frente. Até que, numa total falta de coordenação, lançou-se pelo vidro da sacada.

Com um tipo de fita isolante, selei meu corte. Não julgava adequado sair por aí tão aberta.

Fui à sacada. Avistei, estraçalhado no chão, o ser. Seu corpo desmanchou por completo, transformando-se numa imensa poça gosmenta.

Aliviada, respirei. As entranhas se aqueciam, aos poucos.

Tomei os coloridos e um banho; eu precisava sair de casa.

À noite, ao deitar, liguei o rádio.

Senti, então, a nova velha pontada nas vísceras. Mas adormeci.

Às 7h00, despertei.

Navalhei-me novamente. (Por uma questão de hábito, já havia posicionado a navalha na cabeceira da cama, antes de dormir.)

E, enquanto eu dilacerava o corte que nunca cicatrizava, harmonicamente, o rádio a mim assistia e cantarolava:

"(...) O que será que me dá

Que me queima por dentro, será que me dá

Que me perturba o sono, será que me dá

Que todos os ardores me vêm atiçar

Que todos os tremores me vêm agitar

E todos os suores me vêm encharcar

E todos os meus nervos estão a rogar

E todos os meus órgãos estão a clamar

E uma aflição medonha me faz suplicar (...)"









**Letra da música "O que será (À flor da pele), de Chico Buarque: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=B_k29qtIwNE#at=107

**A imagem é uma pintura da artista italiana Dilka Bear, intitulada "Monstro Interior". http://www.dilkabear.com/

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