quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sinfonias (II)

Acordei dormindo.

Por fora, os olhos abertos. Por dentro, a alma dormente.

Com a camisola ainda no corpo, eu estava em frente ao mar. Apesar de algumas residências próximas, não havia mais pessoas no lugar. Apenas o mar e eu.

O balanço das ondas era intenso. E tudo tão azul... Havia paz.

Hipnotizada por todo o cenário, ali me atirei. Talvez as águas me acordassem. Talvez me adormecessem de vez. Não faria muita diferença.

Rapidamente, o mar me engoliu. E convidou a dançar.

Entreguei-me. Sem mais domínio sobre o corpo, fui totalmente levada por uma sinfonia nunca antes experimentada.

Completamente envolvida por aquela paz, eu sorri. Pude esquecer que, em noite anterior, havia sido cortejada pela mais desagradável das companhias: a solidão de mim mesma.

Mas me lembrei de quando era criança... Na ausência do mar, eu dançava com as estrelas e com a Lua. Elas tinham uns sorrisos que me encantavam.

O céu era meu fiel companheiro. De alguma forma, sempre alertava quando eu não me dava as mãos para atravessar as ruas.

Ao longo dos anos, sem que nos despedíssemos, eu parti. Não mais ouvia seus conselhos. Eu não mais me dava as mãos.

Naquele momento, então, pude senti-lo de novo perto de mim, dentro do mar.

Agraciada, pedi que me levassem de volta para casa.

Carinhosamente, as mãos das ondas me acomodaram na areia. Eu estava, enfim, em minha cama.

Agradeci.

Por dentro, despertei. Olhei para a cabeceira; avistei a navalha. Mas as vísceras estavam tranquilas.

Sorri, novamente. E fui tomar meu café.



"É doce morrer no mar" (Dorival Caymmi; versão com Marisa Monte e Cesária Évora).



**Sempre lembro dessa música quando estou nas águas do mar.

4 comentários: