sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Por baixo de panos

Eu precisava cuidar de mim. Era um daqueles dias em que sentia o peito entupido por uma massa rouca e cinza verdoenga.

-Foi ao médico dos pensamentos? - ela perguntou.

-Fui. - respondi.

Por mais que a contrariasse, não fazia sentido esconder que eu queria ser melhor. Além do mais, os coloridos já findavam.

Subi para o quarto e comecei a observar, pela janela, passos na rua. Chovia... O silêncio era tão brutal que eu ouvia os pingos d'água escorrerem pelo vidro.

Perguntei-me em que ponto tudo se transformara numa síncope eterna. Ou, pelo menos, quase tudo.

Retornei aos 4 anos de idade. Naquela época, ela ainda me abraçava quando eu saía do banho e sentia frio.

Estranho! Esperava beijar, com a lembrança, alguma forma de sorriso. Mas, numa espécie de revolta da alma, enfiei-me às memórias e a empurrei: "Por que você é tão insuportável?! Por que eu não quero te abraçar?! Por que eu sinto pena de você?! Desgraçada!" - eu gritava; eu esperneava.

Então, esfaqueei-me novamente: "Odeio ser sua filha!"

A resposta, fria, dura e sofrida: "Odeio ser sua mãe. Nunca quis que você nascesse."

Lentamente, voltei aos passos que acompanhava. Imaginei me atirar da janela até eles, mas lembrei que eu deveria lavar os panos de chão para ela. Isso poderia amenizar um pouco a dor que sentira naquela noite. Isso poderia amenizar o meu pensador.

Saí do quarto; fechei a porta.

Na cozinha, ela silenciava. Ao lado, eu lavava os panos.






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