sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Mau passado (Parte II)

Era um homem muito bonito. Parecia ter trinta anos. Alto, forte, bem vestido. Usava terno e chapéu pretos.

Com um abraço profundo, ela o recebeu. Beijaram-se calorosamente e se entrelaçaram na cama.

Após se enfadar da dança, ele levantou. Disse que já era tarde. Deveria partir.

Imediatamente, notei a amargura no semblante da mulher. Furiosa: "Você não disse que ficaríamos juntos?", ela questionou.

-Nunca prometi coisa alguma. - ele respondeu, num tom quase rude.

Em uma total inexistência de amor por ela mesma, jogou-se aos pés dele, chorando. Gritava: "Por que você se casou com aquela mulher?! Nós nos conhecemos antes! Por que preferiu ela a mim?! Por que tem outras amantes?! Por que faz isso comigo?!"

Levantando-a pelos braços, disse: "Ouça, querida, você se prendeu a mim porque quis. Sabe bem que venho até aqui apenas porque seu gosto ainda me agrada. Sempre esteve ciente de que jamais passaríamos disto."

Vestindo o paletó e terminando de ajeitar calça, despediu-se. Partiu.

Agachada no chão, compulsivamente, ela chorava. Numa tentativa de acalentar a própria dor, abraçava-se com força.

Com dificuldade, levantou. Nua, colocou apenas o chapéu de viúva. Foi até o banheiro.

Descontrolada, abaixou-se em frente à banheira e, com um tipo de objeto cortante, começou a flagelar o rosto e os órgãos sexuais.

As lágrimas que escorriam se entrelaçavam ao sangue, da mesma forma como eles haviam se entrelaçado na cama.

Senti algo pingar no meu pé. Eu sangrava!

Corri até a penteadeira do quarto e me pus em frente ao espelho: meu rosto estava estraçalhado. Os órgãos sexuais, quase dilacerados.

Voltei ao banheiro. Ela se sentou dentro da banheira, colorindo-a com seu vermelho morto.

Pude sentir suas dores. A cada novo corte, meu corpo gritava.

Inutilmente, tentei interromper aquele horror. Mas eu não era vista, tampouco ouvida.

Quase em desespero, finalmente entendi a razão de eu não ter controle algum sobre tudo o que presenciava: no meu presente, eu estava num passado.

Estirada na banheira, ela aguardava ajuda.

Como se já fosse rotina, a menina das roupas apareceu para socorrê-la: "De novo, senhorita?!"

Percebendo que eu nada poderia fazer ali, desci as escadas. Meu sangue ainda respingava e a dor era insuportável.

Ao sair, ateei fogo na casa.

Quando cheguei ao carro, olhei para trás: somente árvores e mato. Não havia fogo, não havia casa. Eu não mais sangrava.

Fui embora. Precisava me arrumar: à noite, nós teríamos um encontro.

Brigamos: "Quer mesmo saber por que ainda saio para conversar com você antes de nos entrelaçarmos? É porque não gosto de parecer tão cafajeste."

Olhei para os olhos dele: enxerguei o homem de terno e chapéu pretos. Olhei para mim: eu sangrava novamente. Olhei para trás: a mulher na banheira.

Numa chance de interromper o que começara naquela casa, lancei minha mão com força em direção ao rosto dele.

Desci do seu carro. Ele desapareceu.

E eu, ao invés de tentar o ver, escolhi viver. Decidi, naquele momento, que se eu era passiva ao passado, seria justo que o passado também fosse passivo a mim.

Olhei, enfim, para frente. Sozinha, segui meu caminho.

A pé.





6 comentários:

  1. É uma grande verdade. Vidas são roteiros cíclicos em que os fantasmas de um passado que nem sonhamos que exista sempre vem nos revisitar. É uma adaga que nos fere, mesmo sem sabermos de onde vem o golpe.

    Muito bom seu texto. Continue assim.

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    1. Pois é... A adaga sempre estará ali, prontinha pro ataque.
      O problema é quando a gente deixa ela nos ferir...
      Fico feliz por ter gostado. Obrigada pela visita.
      Grande abraço!

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  2. Estes momentos são, ao meu ver, grandes oportunidades de exercitarmos a cura dentro de nós. E, assim, cortarmos de vez estes laços de negatividade que nos levam a nos machucarmos vidas após vidas.

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    1. Justamente!
      Cabe somente a cada um decidir cicatrizar as pancadas passadas, ou definhar por elas.
      E essas oportunidades de escolha sempre aparecem na hora certa...

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  3. Recentemente passei por um processo assim. E, de fato, tive que escolher entre definhar em vida ou encarar os fatos e buscar a cura.

    E, quem disse que o caminho da cura é fácil? Tive que enfrentar o pior que existe dentro de mim: orgulhos, medos, encanações.

    A cura é um longo caminho e ainda estou caminhando por ele. Porém, depois de já ter passado pelo pior e, vendo as coisas se clarearem, eu paro e reflito: "Afinal, valeu a pena."

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    1. É... por isso que eu ouvia tanto "Olha pra frente e não desista."

      Hoje, afirmo com toda a certeza que valeu a pena também. Saí mais forte. Consigo enxergar e valorizar a vida (principalmente, a minha) de forma diferente.

      O processo de cura é contínuo mesmo e, cada acontecimento, no seu tempo certo, sempre vem pra nos mostrar alguma ferida dormente, mas ainda aberta. Só assim podemos cicatrizá-la realmente.

      Muito obrigada pela visita e pelo depoimento.

      Abraço grande!

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