quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mau passado (Parte I)

Eu não entendia a razão de tanto sofrimento.

Nós nos conhecíamos há um ano e, nos últimos meses daquele período, ao nos despedirmos, sentia um pedaço de mim ir embora. Como se jamais fosse voltar...

Eu deveria ficar feliz por cada encontro. Mas já se tornara hábito chorar, compulsivamente, quando ele partia. Numa tentativa de acalentar a própria dor, eu me abraçava com força.

Num certo dia, sozinha, entrei no carro. Sem rumo, dirigia pela estrada.

Algo me chamou a atenção. Avistei uma casa de pedra (como aquelas europeias, antigas).

Atraída pelo que vi, quis ir até lá.

Apesar de a placa indicar "Propriedade particular", parecia abandonada. A porteira estava aberta. Entrei.

A casa tinha dois andares e era mesmo uma construção bastante velha. (Ao redor, como o que eu avistara dentro daquele galpão, em noites anteriores, também havia montes de palha e rodas antigas espalhadas.)

Aproximei-me mais e descobri a porta aberta.

O primeiro andar se assemelhava a um refeitório, com mesas e bancos compridos. No andar de cima, quartos, talvez. "Isso aqui devia ser uma pensão", pensei.

Eu já estava dentro da casa, quando senti que havia mais alguém comigo.

Tentei sair sem fazer barulho. Mas, rapidamente, uma menina passou por mim. Ela carregava roupas nos braços. Aparentava ter dezesseis anos; baixa estatura, um pouco acima do peso. Na cabeça, usava algo como se fosse um lenço branco.

Espantada, eu pensei, novamente: "Ela não me viu?!"

Não, não me vira! Naquele instante, olhei para os lados e vi a casa em pleno funcionamento. Pessoas ali cozinhavam, lavavam o chão, as mesas, os bancos, estendiam e passavam as roupas...

A menina subiu as escadas.

Mesmo sem entender o motivo pelo qual ninguém me enxergava, fui atrás.

Confirmando meus pensamentos, no andar de cima se localizavam os quartos. A menina bateu à porta de um deles.

Uma mulher jovem a abriu. Devia ter alguns vinte e cinco anos. Os cabelos loiros, compridos; média estatura. Esquálida, trajava uma veste longa, preta. Usava um chapéu de viúva. Sua maquiagem parecia ser a própria amargura.

A menina entregou as roupas. "A senhorita está bem?!" - perguntou.

Aos gritos, a resposta: "Cala esta sua boca gorda e deixa-me em paz!"

Cabisbaixa, a menina desceu as escadas correndo.

Entrei no quarto. Uma suíte. Decorada com tristeza, mofo e muita desordem, era mórbida. O cheiro, péssimo.

Ao lado da janela, uma cadeira. A mulher ali sentou.

Repentinamente, em sua face, apareceu um sorriso. Por alguns instantes, imaginei que toda aquela primeira impressão pudesse estar equivocada.

Tirou o chapéu, penteou os cabelos. Passou o batom vermelho.

Apesar das marcas no rosto, ela era bela.

Alguém bateu à porta...





2 comentários:

  1. Parabéns por mais esta excelente postagem. Aguardamos com intrigante interesse a conclusão desta passagem.

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