domingo, 13 de janeiro de 2013

Gestações (Parte II)

O Sol apareceu.

Por entre frestas da cortina, a claridade adentrou, saudando-me com um leve calor nas maçãs frias do rosto.

Eu já estava comigo, bebê, entre os braços. E estava linda; uma jovem bem morena, com os cabelos lisos,  castanhos e os olhos claros. Usava também um lenço lilás na cabeça. Senti uma vontade enorme de estar presente em cada fase da minha vida, que "reacontecia" naquele instante.

A alegria era inexplicável: seria um dia de festa e eu deveria me preparar.

Colhi flores nas minhas gavetas. Banhei-me. Perfumei-me. Não quis tomar os coloridos. Eu realmente me sentia linda.

Já era final da tarde. O Sol dava lugar à Lua.

Entrei no carro e, carregando-me no colo, fui encontrar, novamente, aquelas pessoas na casa das vozes doces.

Já me esperavam. Pegaram as rosas e espalharam-nas pelo chão.

Assustei: ao pisar no tapete florido, não era mais tão jovem. Sem que pudesse controlar, minhas expressões se transfiguraram numa mulher madura. Alguns 38 anos, talvez.

As pessoas formaram um círculo ao redor. Fez-se um silêncio. Fechei os olhos.

Senti, então, alguém encostar sua testa na minha, abraçando-me.

Mesmo confiante na cápsula que receberia para ser melhor, bloqueei-me. Eu envelhecia rapidamente e não conseguira impedir. No lugar da mulher bela, uma idosa. A pele sem espaço para mais rugas. Tampouco para sofrimentos.

O abraço foi uma despedida de mim mesma: "Perdão, mas é preciso que você caminhe sozinha a partir de agora. Preciso que viva sem mim. É para o seu próprio bem."

Desabei em lágrimas. Senti a mesma rejeição de quando ela me expulsara de seu ventre. Tive medo. Não poderia me perder de mim. Agarrei os pulsos que me abraçavam e implorei que não partissem.

Mas, sem darem ouvidos, foram-se.

Abri os olhos; não havia mais a idosa. Não havia mais o bebê. Ele voltara ao meu útero e, sem que pudesse controlar mais uma vez, no parto, ele não saiu de mim. Adentrou-me, tomando conta de cada parte do meu corpo. Eu brotara, enfim.

Sorri. E, sorrindo, aceitei dançar com aquelas pessoas.

A festa começara.




Nenhum comentário:

Postar um comentário