sábado, 12 de janeiro de 2013

Entre regas

Acordei. O relógio já marcava 14h00.

Corri ao banheiro: era mais um dia de crise. As vísceras, assim como as mãos, estavam geladas.

Ali fiquei sentada, sem me mover, durante quase uma hora. Pensava em estratégias para fazer as vísceras obedecerem. Ou, ao menos, as mãos.

Eu precisava alcançar os coloridos. Mas o gelo era intenso; começava a tomar conta do meu pescoço.

Imóvel, sem expressão alguma e já quase sem respirar, implorei às cordas vocais que fossem buscar ajuda.

Elas foram. Senti um alívio. Quando retornaram, mostraram-me um recipiente, com um pouco d'água. Disseram que iriam me regar. Eu deveria brotar novamente.

"Numa privada?!", eu questionei.

"Por que não?!" - elas responderam. "Talvez alguém aí defeque e, piedosamente, ceda-lhe um cado de adubo."

Aceitei a alternativa. Encolhi-me dentro do próprio útero. (Eu gosto de ficar dentro dos meus órgãos. Faço isso desde que ela me expulsara do seu.)

Senti os pingos d'água me molharem e, ao contrário do que imaginava, lentamente, recuperei o domínio sobre o corpo.

Consegui levantar. As vísceras e as mãos ainda gelavam um pouco, mas pude chegar até os coloridos.

Fui, então, eu mesma me regar. De início, com um banho.






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