quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Cigarros da vida

Naquela hora, quis observá-la pela fechadura. Ela fazia o que eu mais detestava: bebia seu whisky com guaraná. E com o gelo da própria alma.

Eu me irritava até com o barulho do whisky sendo colocado no copo, escorrendo pelo gelo. Não sei racionalizar o motivo de tanto rancor, apenas sentia uma vontade imensa de quebrar aquele copo entre os dedos dela. 

Ela levantou do sofá. Desfiz, com maestria, a suposta invisibilidade e tentei subir as escadas. Mas fui paralisada por um grito, por uma ordem: "Venha agora aqui!" 

Eu gelei. Ela chorava. Então, gritou novamente: "Sua filha da puta! Experimente ir ao médico de novo dizer que não está bem dos pensamentos, sua fresca!" 

Dentro de mim, a sinestesia provocada pelas palavras, pelo cheiro da bebida, pela mágoa, pela possibilidade de o copo quebrar naquele momento... 

Mas preferi compreender. Era uma pessoa sofrida, para quem eu não fazia muita coisa desde os últimos 20 anos, talvez.

Abaixei a cabeça e, finalmente, subi as escadas. Agradeci por aquele grito. 

Tomei o colorido acalmador de pensamentos pretos. E dormi.





2 comentários:

  1. Respostas
    1. Nossa, não estou acostumada com comentários aqui e até assustei rs!

      Um muito obrigada assim... muito feliz rs!

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