sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Aquilos e memórias

Eu guardava as roupas e ouvia os Markovic`s, quando algo saiu, apressadamente, do meu quarto.

Um pouco assustada, resolvi seguir aquilo que havia por ali passado.

Parei na porta do cômodo da mais moça. O aquilo lá estava, sobre a cama, olhando fixamente para o papel colado num mural.

Eu o lera há alguns dias. Tratava-se de um bilhete escrito pelo meu pai, num papel amarelo com linhas azuis, para minha irmã.

Quis me aproximar. Coloquei-me, então, à frente de aquilo e, sem acreditar no que vi, descobri um espelho.

Preso ali dentro, meu reflexo lia e relia, numa repetição frenética, as palavras escritas no papel:


08 de setembro de 1997.

Querida, 

Para sermos pessoas felizes e realizadas, devemos nos dedicar de corpo e alma a tudo aquilo que fizermos.


Senti, naquele instante, uma dor profunda no corpo. A garganta se fechava e a falta de ar dava os primeiros sinais.

Antes que a fobia dominasse, consegui ordenar ao meu reflexo que esquecesse do bilhete. Todavia, em completa autodesobediência, o olhar não se desviou da leitura:


Se você se dedicar com seriedade aos seus estudos, amar e respeitar a natureza, certamente estará construindo um mundo melhor para você e todos nós.

                                                                                                                
Ordenei, novamente, com gritos, que parasse. Mas, como se aquela dor não me fosse suficiente, fui interrompida pelo reflexo de meu pai que também aparecera.

Com lágrimas escorrendo, eu assistia a mim mesma culpando-o por toda a nossa infelicidade. Ele nunca me dissera ou escrevera algo parecido. Sempre me julgou forte demais para qualquer tipo de afeto.

Outras cenas se projetaram: aos 5 anos, ele gritou comigo porque eu chamara os galos do quintal por "cocó"; aos 17, recebi um tapa no rosto porque eu estava namorando; aos 25, chamou-me de vagabunda porque eu não tentara um emprego melhor...

Com a alma já definhando em dor, alcancei o espelho. Num ato de desespero, atirei-o contra a parede.

Aos pedaços, eu ainda via meu reflexo ali, com o dele. Peguei-nos.

Após os coloridos, tentei dançar. A três.

E, sem querer, avistei entre aqueles cacos, o final de todos eles:

                                                                                   
                                                                                                                                  Um beijo de seu pai.








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