domingo, 9 de janeiro de 2011

Saia injusta

Ontem senti a estranha frustração por ter um gosto musical além massa.
A idéia era simples: presentear um amigo músico, cujo gosto se assemelha ao meu.
Na loja, perguntei o que poderiam me oferecer de cultura popular brasileira. Pra facilitar, especifiquei: "Quero algo nordestino, raiz."
Veio a primeira decepção: uma interrogação estampada na face e na alma da atendente.
Facilitando ainda mais: "Pode chamar de batuque."
Então, a segunda decepção: "Nossa, vai ser difícil encontrar."
Insistindo, aprofundei na especificação: "Mas não há algo de maracatu, baião, coco, ciranda...?!"
E a terceira decepção, já mais do que esperada: "Hum, não tem isso não..."
Vencida pelas decepções, desisti do som nordestino. Fui até uma segunda loja, decidida a presenteá-lo com samba clássico. Que ingenuidade... Apresentaram-me a opção samba bom, com artistas contemporâneos. Num tom quase desesperador, implorei: Zé keti, Noriel Vilela, Wilson das Neves, Candeia... nada?!
Tive vontade de chorar.
Por sorte, olhei para o lado e me deparei com um quase divino cd do Noite Ilustrada, grande violinista e sambista. Transmutei, felizmente, o choro interno num alívio dos deuses.
Porém, a indignação com o descaso dos atendentes em relação ao meu pedido, corroeu-me. Ausência de conhecimento é totalmente aceitável. Mas daí a vestir-se da ignorância, existe uma outra linha também tenuestrategicamente colocada.
Nesta fase em que a informação circula com absurda velocidade, é revoltante que ainda se viva sob uma cômoda sombra, aceitando passivamente a cultura como simples e banal mercadoria. E não me refiro à arte, somente. Essa apenas sofre a trágica consequência de todo um contexto. Aponto é pro ser, pra vida que habita em cada um.
Um brinde à revisão de conceitos...

Seguem os links para as respectivas minibiografias dos artistas citados:

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